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terça-feira, 28 de agosto de 2007

A Rosa Vermelha da América


A Rosa Vermelha da América

América é um pequeno povoado cravado no alto da serra grande, a famosa serra dos cocos.
Como todo lugarejo serrano se destaca pela sua paisagem bucólica. Um clima de fresco para frio, o céu é um típico azul anil, salpicado de alvas nuvens e um verde em todos os tons reveste feito uma esplendida pintura a natureza serrana espalhando esperança por toda serrania.

Conhecida pela Lenda de Santa Feliciana, e por sua tradicional feira, onde o forte é a compra, troca e venda de animais, foi também, palco de uma linda história de amor.

Foi num sábado ensolarado que o lugarejo amanhecera tomado por um bando de ciganos que se dirigiam até aquele local com o intuito de fazer boas trocas e grandes negócios.

Num minuto o bando montou sua tenda. Aquela espécie de circo colorido chamava a atenção de todos os habitantes da América. Depois da barraca montada e devidamente instalada, buscaram o rumo da feira.


Em pouco tempo a cidade ganhava nova paisagem. Ciganas com suas roupas multicores, davam um novo colorido aquela região, tingindo o ambiente com cores fortes e vivas. Com muita desenvoltura abordavam os serranos fazendo profecias na leitura de mãos. Belos ciganos montados em seus cavalos encantavam as mocinhas sonhadoras que se animavam com tanta movimentação.

Enquanto as ciganas circulavam lendo mãos, os velhos e espertos ciganos munidos de farta experiência faziam suas trocas na feira. O cigano Ribamar, um belo moreno de olhos verdes montado em seu enfeitado jumento parava na barraquinha de Rosa.

--- Bota uma Serrana aí !
Rosa estava de costas, quando se voltou, já trazia a dose de cachaça na mão. Seu ouvido apurado lhe confirmava que aquela voz cantada era de um estranho.
Quando os dois entreolharam-se, uma forte magia os contagiou, estavam embevecidos um com o outro. A magia por um momento os tirara do ar.
De um só gole o cigano tomou a pinga, e Rosa que rubra ficara com aquele olhar penetrante, voltava a normalidade.

Ali nascia um típico caso de paixão a primeira vista. Rosa que era desimpedida iniciava com Ribamar, a contra gosto de sua família, uma linda história de amor.

A fama dos ciganos, aquela vida nômade, e os comentários no pequeno lugar, tudo isso foi motivo para que os pais de Rosa a trancassem a sete chaves proibindo o belo romance.

Nem Rosa nem o cigano Ribamar se conformavam com aquela proibição, e assim sendo deram um jeito de trocar recados e bilhetes. Mas tudo isso por pouco tempo, pois no sábado seguinte os ciganos levantariam acampamento.

Ribamar não poderia deixar o bando, mas não queria deixar o seu amor e foi nesse emaranhado de pensamentos que ele resolveu que roubaria a Rosa da América.
Comprou, um lindo vestido vermelho, pulseiras e tiaras com medalhas dependuradas e uma rosa também vermelha para que sua amada , fantasiada de cigana fosse confundida com as outras ciganas do bando.

Rosa lamentava deixar seus pais, mas não suportaria viver sem o seu grande e único amor.
Concordou com a proposta de Ribamar, e enquanto seus pais trabalhavam na barraca, ela vestida de cigana subia da garupa do Giron , Jumento montado por Ribamar, e mais tarde foram acompanhados pelo bando que comovido com a paixão dos jovens deu-lhes total apoio.

A América inteira sofreu com a fuga de sua Rosa. Os pais saudosos choravam por sua filha, e Rosa também não esquecera os seus entes queridos.

Depois de um ano, num sábado de sol, dia de feira, ao longe se via um bando de ciganos, a exemplo de outros tempos invadindo o lugarejo.

Na frente dois jumentos: um montado por Ribamar com uma criança no colo. No outro Rosa, vestida de vermelho, com uma rosa nos cabelos, e na mão uma bandeira branca pedindo paz.

Rosa era chamada pelos ciganos, Rosa vermelha da América, todos no bando gostavam dela. Dessa união nascera uma linda menina a qual deram o nome de Verbena.

Rosa foi recebida com festa por todos, e perdoada por seus pais. O bando resolveu libertar Ribamar das leis ciganas para que ele enfim, pudesse ter uma vida mais sossegada e feliz ao lado da esposa que tanto se sacrificara por ele.

Contam que, desse tempo para cá, as mocinhas da América quando querem conquistar suas paixões, colocam uma rosa vermelha nos cabelos, vestem um vestido tão vermelho quanto a rosa aparecendo assim, na frente do seu pretendente que ao encontrá-la nunca mais largará do seu pé. Dizem até que, já criaram um grupo folclórico que leva o nome de: "Rosa Vermelha da América."







segunda-feira, 27 de agosto de 2007

LANGOR

Dalinha Catunda

LANGOR

Uma aura de melancolia,
sombreava seu semblante.
Seus olhos olhavam e não viam,
perdiam-se no horizonte.

Quanta tristeza contida,
naquele rosto moreno.
Sua face se orvalhava,
feito uma rosa ao sereno.

Que inferno lhe consome?
Que dores lhe afligem o peito?
Parece dor de amor,que fina,
e não tem mais jeito.

Talvez ela ainda não saiba,
que não se morre de amor.
Mais um pouco, cessa o choro.
E vai-se embora o langor.

domingo, 19 de agosto de 2007

A Lenda da Cobra Grande


Ilustração de: Fernando Brito
A Lenda Da Cobra Grande


Contam que há muito tempo atrás, entre Ipu e Ipueiras, vivia uma velha senhora, possuidora de muitos bens e dona de grande maldade.Todos afirmavam que ela era muito ruim com os empregados, uma verdadeira cobra.

Certo dia ela caiu doente. Idade avançada e o tempo que não perdoa, entrevara a velha numa cama. Por um bom tempo ela ficou nesse morre-não-morre.
Filhos, netos, noras todos cobriam a velha senhora de atenção, até porque, sabiam que seu fim se aproximava.

Uma noite quando todos já haviam se recolhido, ouviu-se um grito, era um dos Netos que tivera uma espécie de pesadelo. No sonho sua avó aparecia aos gritos entre chamas sendo queimada numa grande fogueira.
Na manhã seguinte o rapazinho foi até a avó e pediu que ela se arrependesse de seus pecados, ela, mesmo a beira da morte falou para o Neto: __ deixe de besteira!!!.

Em pouco tempo a velha morreu, sem ao menos receber a extrema unção.
Depois de certo tempo, esse mesmo Neto saíra para caçar. Ouviu um barulho e bem rápido apontou a espingarda para atirar. Na sua mira uma cobra, quando quis apertar o gatilho, ouviu uma voz:da minha rama murcha ninguém puxa. Reconheceu naquela voz, a voz de sua avó, e teve certeza que a voz saíra daquela cobra que de cabeça erguida o observava atentamente.

A partir deste dia, ele passou a voltar ao mesmo lugar e trazer carne para a cobra. Um dia um quilo, outro dia dois, três, e ela não mais se satisfazia com o que ele trazia para sua alimentação. Aí, ele passou a trazer cabrito, bezerro e ela comendo e crescendo. Cresceu tanto, cresceu tanto, que apavorava a todos nas redondezas.
O pior é que matar, não podia, conforme a lenda, só uma coisa acabaria com a raça daquela cobra. O lodo do mar. E como fazer para levá-la até o mar? Resolveram que fariam uma grande jaula, colocariam a serpente dentro e atrelariam a jaula ao trem que passava naquelas imediações para acabar de vez com aquele tormento.

E assim foi feito. Numa jaula enorme com porta na entrada e na saída, eles colocaram uma criança devidamente treinada para atrair a cobra. A criança entrou e a cobra faminta foi atrás. Assim que a criança atravessou a jaula e saiu, eles fecharam a porta, quando a cobra grande acabou de entrar eles fecharam a outra. Concluindo essa difícil parte da tarefa, a missão seguinte foi despachar a cobra grande rumo ao mar para que seu lodo se encarregasse de dar fim naquele ser monstruoso em forma de cobra gigante.
Dalinha Catunda
Ipueiras-Ce

terça-feira, 14 de agosto de 2007

ARRAIÁ DA JUVENTUDE

Foto na foto de Edmar Cordeiro da esquerda para direita:
Sandra Bomfim, Edilson Sales, Dalinha Catunda e Adauto Gonçalves
Arraiá da Juventude

Nesses quarenta dias que passei em Ipueiras, participei de vários eventos.
Fui praticamente intimada a comparecer como jurada numa festa de Quadrilhas organizada por Carlos Alberto Moreira de Araújo, ( O Carlão), Filho de dona Zuila e seu Juarez gente amiga do Corte Branco. O que me deixou muito feliz, pois é na simplicidade do interior que explode a criatividade.

Sem os aparatos das grandes quadrilhas, temáticas e patrocinadas, presenciei a animação, a alegria daqueles jovens que brincavam de pés no chão, vestidos de chita, lembrando as velhas quadrilhas onde brinquei no passado.

A fita, a chita, o colorido, o chapéu de palha, tomaram conta da noite animando a população da Floresta, Corte Branco, Arroz e outros lugarejos vizinhos que em grande número vieram prestigiar essa noite festiva.

O ambiente do Carlão é um lugar rústico, onde um pequeno bar se alonga num corredor coberto de palha, entre árvores espalhadas no terreiro. Foi lá que revivi o sabor das velhas fogueiras e a animação do passado. No comando das comidas típicas, Maria de Fátima, esposa de Carlão, não deixou a peteca cair.

O radialista, poeta popular e cantador, Edílson Sales comandou o cerimonial dando um toque cômico bem apropriado à ocasião. Além de realizar brincadeiras com as crianças presentes, fez um festival de dança entre os casais das quadrilhas e tocou fogo no terreiro ao anunciar os grupos de quadrilhas que eram apenas dois, mas contagiaram o ambiente.

Edmar Cordeiro dos Santos com sua maquina digital não perdeu um só lance da animada folia, enquanto Sandra Bonfim, sua esposa, ao meu lado e de Adauto Gonçalves Ribeiro formávamos o grupo de jurados.

Foi difícil avaliar qual o grupo melhor, mas o da casa acabou levando o troféu. Os dois eram denominadas “Arraia da Juventude”. O que diferenciava é que: uma era do Corte Branco, outra de Santa Rosa. Na realidade as duas estavam no mesmo nível.

Foi bonito ver aquele chão batido, meninos e meninas de pé no chão, levantando poeira, espalhando alegria, mostrando sua garra e mais uma vez nos ensinando que nem sempre a alegria brota da riqueza. Riqueza maior e ver esses jovens exercitando sua cultura e engrandecendo o sertão sem perder sua identidade. Mesmo comendo poeira, voltei de alma lavada.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Meu Pai Meu Guia


Foto: Espedito Catunda de Pinho

Meu Pai, Meu Guia

De meu pai eu apanhava,
quase todo santo dia.
Era menina levada,
boas surras merecia.
Mesmo assim eu adorava,
àquele que me batia.

Se apanhei, fiz por onde.
Entendo a situação.
Por isto trago com gosto,
meu pai em meu coração.
O objetivo das surras,
era apenas a correção.

''Quem não faz filho chorar,
mais tarde chora por ele''.
Assim reza o ditado,
e os antigos criam nele.
As surras, carões e castigos,
eram apenas excesso de zelo.

Das sovas, não tenho saudades.
Mas, ainda mereço sermão,
quem dera ser sempre guiada,
por sua voz e sua mão.
Continuo sua menina.
Faz falta sua proteção

terça-feira, 7 de agosto de 2007

A Pipa do Pepeu

Foto: João Pedro, o Pepeu

A Pipa do Pepeu

João Pedro, é um garotinho muito esperto para sua idade. É um pedacinho de gente, de olhos e cabelos escuros, carinha de levado, não deve ter mais do que cinco anos, é conhecido como Pepeu.
Criado no interior com toda liberdade que um lugarejo onde todos se conhecem proporciona, ele vive feliz e solto curtindo sua infância.

Safira de Maraporã , esse lugarejo de nome belíssimo, que fica no estado do Rio de Janeiro, é o reino encantado de Pepeu. Lá ele anda a cavalo, anda de bicicleta, gosta de comer churrasquinho, adora brincar no pula-pula, corre pelas ruas e becos, e é apaixonada por Lili.Sendo que, Lili, é uma amiga de seus pais e tem idade para ser mãe de Pepeu. Muitas vezes ao ser embalado, adormece nos braços de sua paixão.

Certo dia, Pepeu cismou que queria uma pipa. Vendo a meninada maior,correndo pra lá e pra cá arrastando suas linhas e latas, passando cerol, não sossegou enquanto o pai não providenciou o objeto de seu desejo.

Pipa pronta, linha enrolada na lata de refrigerante para facilitar o desenrolar da brincadeira, lá vai Pepeu, com sua pipa colorida, alegre a correr. Sobe rua, desce rua, vento a favor e a pipa no alto fazendo sua felicidade.

Mas, a alegria de Pepeu durou pouco... de repente, um redemoinho afunilou em cima da pipa do garoto e a latinha escapuliu de suas mãos, a pipa começou a voar, voar, como se fosse um balão. Voou com lata e tudo, até perder-se no céu ante o olhar admirado e incrédulo de Pepeu, que só deixou de olhar para o infinito quando a pipa desapareceu por completo.

Para quem pensa que Pepeu, foi chorar e ficar triste com o sumiço de sua pipa. Ledo engano . Ele adora contar para todos a história de sua pipa especial que voou com lata e tudo.

E foi assim. Que Pepeu perdeu sua pipa e ganhou uma história: “A Pipa do Pepeu”

domingo, 5 de agosto de 2007

Consagração do pé-de-serra

Na foto de Kennedy Mota da esquerda para direita aparecem: "Corrinha" do Guarani, Mimozinha, Zeca Frosino, Dalinha e Cesar Lourindo.
A consagração do pé-de-serra

Ipueiras viveu no dia sete se julho de 2007 a maior festa popular organizada por Zeca Frosino em todos os tempos. A quadra do Corte Branco foi palco deste espetáculo que certamente ficará na história.
Há 52 anos realizando forró, nem mesmo Zeca, imaginou, que o Chitão de 2007 superasse todas as expectativas, deixando no chinelo, outras festas de maior porte, com bandas do momento em lugares mais chiques.
O forró do Corte Branco tem uma legião de fiéis seguidores que acompanham Zeca nessa alegre caminhada. Mas, o que se viu nessa última festa foi a invasão da sociedade Ipueirense que em grande numero prestigiou esse forró de matuto, que prima pela tradição e a simplicidade dos que habitam o interior.
Os Sanfoneiros de renome: Bento Raimundo e Edílson Vieira, oriundos de Crateús, se revezaram tocando pé-de-serra, consagrando de vez esse tipo de forró animando e arrastando o povão para o meio do salão. A festa começou as 20:00 hrs e terminou com o sol, sob protesto dos mais exaltados. E como não poderia deixar de ser com o discurso de despedida de Zeca que já anunciava para 05 de julho o chitão seguinte.
No forró, feliz e animada, Mimozinha do Simão, acompanhada por César Laurindo e “Corrinha” do Guarani, realizava o sonho de ir ao forró e dançar com Zeca Frosino. Ilca do seu Camaral, freqüentadora, se divertia junto com Madú e dr Enéas. Silvia Catunda animava a mesa onde Aparecida, Bateia e Dorisnei bebericavam.
Antônio Eliseu exímio dançador, Raimundo Nelson figura Marcante, Manoel Aprígio freqüentador das antigas, todos marcaram presença enriquecendo o evento. Também presentes: Ronaldo Costa e esposa, Chico Coité e esposa sendo esse último também organizador de forrós.
A cozinha de dona Maria com churrasco, paçoca, caldo de carne moída, creme de galinha, café, bolo, esvaziou foi cedo. O bar? Nem se fala!! Sobrou festa e faltou comida e bebida. Se tivesse mais uma quadra do mesmo tamanho da quadra existente, ela ficaria lotada do povo que ficou do lado de fora.
Eu fico feliz por ter presenciado, a consagração do forró-pé-de-serra, mais uma vez a confraternização do povo do interior com as gentes da cidade, a tradição encarando o modismo e definitivamente fincando pé em nossa terra.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Festas de São João

Foto: Carlos Moreira, Dalinha Catunda e Zeca Frausino
Festas de São João

Com é gostoso se ver
No sertão das Ipueiras,
O sorriso das meninas,
Remexendo as cadeiras,
O forró correndo solto,
No faiscar das fogueiras.

É milho, é pamonha,
Caldo quente e canjica,
Rapaz tomando chegada,
Atrás de moça bonita.
Muita trança, muito laço,
No colorido das fitas.

O gritador toma fôlego
P’ra gritar sua quadrilha,
Pares dançam animados,
Sob aplausos da família,
É o são João do Nordeste
Sinônimo de maravilha.

Um grita: olha a chuva!
Outro: agora é o trancelim
Um rapazinho galante,
Acena e pisca p’ra mim.
E eu fico feliz da vida,
Vendo meu sertão assim.

É fogueira, é folia,
É forró e animação
Menino soltando traque
Rapaz soltando rojão,
É a cultura nordestina
Incendiando o sertão.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Quadrilha

Foto: Dalinha Catunda

Maria bonita
vestida de chita
dançava São João.
Em meio a quadrilha,
seguia a trilha
do seu coração.
Coração aventureiro
gostava de Pedro,
e queria João.
João tava difícil,
não foi sacrifício
pegar noutra mão
Viva S. Pedro!
Viva S. João!
Maria era bonita!
E com laço de fita
virou perdição.
Com cabelos trançados,
e seu requebrado,
chamava atenção.
Dançando faceira
esqueceu-se de Pedro,
e também de João.
Nos braços de Antônio
perdeu-se nos sonhos,
ardeu-se em paixão.
Foi aí que Maria
perdeu sua fita
rolando no chão.
Maria aflita
sem laço de fita
engrossou a cintura
e fugiu do sertão

segunda-feira, 4 de junho de 2007

A Panela Remendada

Foto: O casal, Lúcia e Antônio Félix
A PANELA REMENDADA

Lá pras bandas do Corte Branco,
Pertinho da linha do trem,
Moram Lúcia e Toínho,
Um casal que quero bem.
O causo que conto agora,
É deles e de mais ninguém.

Antonio Felix aperreado,
Andava com pouco dinheiro.
Vendeu uma cabra parida,
As galinhas do terreiro
Vendeu até os ovos!!!
Pinto e pai-de-chiqueiro.

Queria vender o relógio,
E Lucia deu permissão
pensou em vender o anel,
mas Lúcia não deixou não.
Se tu fizer essa loucura
Eu vou te largar de mão.


Toím tomou consciência,
da besteira que ia fazendo.
Mulher tu tem mesmo razão,
O meu anel eu não vendo,
Eu sei que a coisa ta feia,
Mas ainda não ta fedendo

Por favor não levem a mal,
A história desse anel,
Foi presente do seu pai
Que hoje está lá no céu.
Tem uma pedra preciosa,
Dourada da cor de mel.

Lúcia Mulher católica,
Pediu a Deus proteção.
Toinho desesperado,
Não via uma solução
Era uma peleja danada
Pobreza e precisão.



A vida foi passando,
Do jeito que Deus queria,
Eram muitas as dificuldades,
Poucas eram as alegrias
Mas, se estava escrito assim,
Assim mesmo é que seria.

Neto, tinha um em casa,
Outro no bucho da fia
Se Lúcia não fecha as pernas,
Ele aumentava a família.
Lascado, lascado e mei,
Era assim, que Toím dizia.

Até que enfim o casal,
Teve um dia de alegria,
Vilmar filho de Zeca,
Chegou vindo de Brasília,
Na intenção de ver o pai,
rever amigos e família.

A viagem era rápida,
Mas tempo ainda deu,
Para aceitar o almoço,
Que Lúcia lhe ofereceu
Pois Vilmar como se sabe
É primo legitimo seu.

Almoço em casa de pobre,
É galinha ou baião.
O casal fez logo os dois,
Pois pedia a ocasião.
Vilmar era considerado,
Mais que primo, um irmão.

O que estava na panela,
Era o galo de estimação.
Quando botaram na mesa,
Vi crista, pé e esporão,
E dois caroços miudinhos,
Salvo engano era os culhões.

Um cogumelo solitário,
Boiava no meio do caldo,
Era o feofó do galo,
Que Lúcia não havia tirado.
Foi pro prato de Toím
E logo foi mastigado.

Do galo ela aproveitou tudo,
E a comida tava uma beleza.
Quente cheirosa e gostosa,
Fartura tinha na mesa.
Toím contava contente,
Piadas e safadezas.

O visitante satisfeito,
Acabando de almoçar.
Olhou a panela vazia
Chegou a se espantar.
Uma panela remendada???
Não podia acreditar.

Me diga meu caro Toím
Quem remendou essa panela?
Fui eu mesmo mais a Lúcia.
Com a ajuda duma suvela.
Depois de fazer os buraco,
Enfiemo arame nela

De tudo já vi nesta vida,
Meu amigo pode apostar.
Meia, calça e cueca,
eu mesmo sei consertar
Mas, panela remendada
Só mesmo no Ceará.

Além de causar pena,
espanto e admiração.
a panela remendada
mexeu com seu coração,
Vilmar sem pensar muito
Fez logo uma doação

Deu de presente ao casal
Uma panela de pressão.
Uma panela pro o arroz ,
E outrazinha pro feijão.
Resolvendo uma de vez
A triste situação.

Toím muito sabido,
Aprendeu bem a lição.
chegando alguém de fora
Faz a mesma arrumação.
Bota a panela velha
Pra ganhar uma coleção.

O negócio foi dando certo,
Pra sua felicidade,
Atualmente é o paneleiro,
Mais famoso da cidade,
Consertar e vender panelas,
É sua especialidade

Na casa de Lúcia e toím,
Não existe mais mazela.
A salvação da lavoura,
Foi a surrada panela.
Depois do primo Vilmar,
Todos caem na esparrela.

Só que Vilmar agora ,
Quer uma participação.
Vendo Toím lascado,
Foi ele quem deu a mão.
Nada mais justo que ele,
Pague agora uma comissão.

Toím hoje é empresário,
Vive em boa situação.
Vende panela a vista,
E também a prestação.
Ainda sobra panela
Pra rifa, bingo e leilão.

Ele abriu seu próprio negócio
Na intenção de faturar.
vendo a coisa crescendo
não tem medo de melar.
assim faz qualquer negócio,
Vende, troca, empresta e dá

Já vendeu panela pro Claudio
Pra Sandra e pro Edmar.
Ofereceu ao Gilson Oliveira
Mas ele não quis comprar.
Carlão comprou um monte,
Mas se esqueceu de pagar.

Dona Maria comprou duas,
Elenita comprou três.
Dona Zuila ganhou uma,
presente de seu Juarez.
O cabra é bom de negócio
E tá cheiiinho de freguês.

Depois da vida boa,
Toím deu pra versejar.
Falando de sua panela,
E da mulher que tem no lar.
Quem passa naquelas bandas
Sempre escuta ele cantar:

Duas coisas neste mundo,
Eu não vou perder à-toa,
É minha panela velha,
E também minha coroa,
Pois juntinho delas duas
Minha vida é muito boa.

Agradeço a deus no céu,
E meu amigo Vilmar,
Que veio lá de Brasília
E acabou por me ajudar,
Como vendedor de panela
A égua eu vou lavar

Sou Dalinha Aragão,
Gosto de escrever cordel,
O causo de Antonio Felix,
Eu já passei pro papel.
Quem gostar do meu relato,
Por favor, tire o chapéu.


.
Este terceiro cordel é uma homenagem ao casal Antônio Felix e Lucia, e ao pessoal do Corte Branco, gente boa, simples e amiga da minha querida Ipueiras