O JUMENTO FOI MAIS QUE IRMÃO
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Lá no meu sertão antigo
Já se comia jumento
O bicho era apreciado,
E mesmo sem condimento.
Era no meio da brenha
Que o jegue entrava na lenha
Sem relincho e sem lamento.
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Um querido amigo meu
Certo dia foi cobrado
Pelo dono da jumenta:
- Se tu tá amancebado
Com a jumenta roxinha
Leve um milho pra bichinha
Ou tem namoro acabado.
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Dando voz aos seus instintos
Gaiatos tiravam onda,
Certo dia um foi flagrado
Pelo sujeito da ronda
Q’ ouviu na hora do ato:
- Só não lhe dou um sapato
Porque tem pata redonda.
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Quem comeu jumento vivo
Não come jumento morto
Seu projeto não procede
Pois ele já nasceu torto
Quem levou Nosso Senhor
Ouça bem seu promotor:
Merece melhor conforto!
*
Meu prezado promotor
Reveja sua opinião
Este bicho com certeza
Foi e é a salvação
De quem come, mas não mata.
E nem de longe maltrata
“O jumento nosso irmão.”
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O jumento tem história
Profana também sagrada
Nas páginas da memória
Costuma ser degustada
Arranje novo destino
Para o jegue nordestino
E não a morte matada.
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Foto e versos de Dalinha Catunda


