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quarta-feira, 28 de julho de 2021

CORDEL DE SAIA


 CORDEL DE SAIA

1

A mulher faz diferença

No cenário do cordel

Conhece bem seu papel

E no palco tem presença

A musa roga licença

Para iniciar seu canto

Sabe escrever com encanto

Enaltecendo a cultura

Ornando a literatura

Em todo e qualquer recanto.

2

Para o seu cordel fazer

A mulher se preparou

Ela se capacitou

Garanto e posso dizer

Fez e faz por merecer

Esse lugar conquistado

Pois já ficou comprovado

Que seu nome é competência

Das regras tomou ciência

Tem currículo aprovado.

3

É cheio de inovação

O Cordel vestindo saia

Lá no alto feito arraia

Faz a sua evolução

Não esquece a tradição

Traz de volta a cantadeira

Dando voz a cirandeira

Com seus trajes coloridos

Os aplausos repetidos

Saúdam essa bandeira.

4

Na peleja virtual

A mulher, bonito faz

Demonstra que é capaz

Destemida e atual

Se um dia foi desigual

O mundo cordeliano

Na saia ela botou pano

Para rodar o babado

Espantar o mau olhado

E seguir sem desengano.

5

Na boca da cordelista

Renasce o cordel cantado

Por muitos apreciado

É imensa a nossa lista

A mulher está na pista

Faz graça na cantoria

Encara bem a porfia

Na hora de pelejar

Canta sem titubear

Agindo traz alegria.

6

É a mulher nordestina

A que canta alegremente

Os versos que tem na mente

Com sorriso de menina

Se junta e não desatina

Para dar o seu recado

Bota o cordel no tablado

Nos cabelos uma flor

Sabe que tem seu valor

E pra ela tem mercado.

7

Nosso cordel feminino

Nosso cordel de mulher

Não é de meia-colher

É arte de quem tem tino

E usa tempero fino

Para os versos temperar

Assim consegue agradar

Quem gosta do que é bom

Por não ter medo do tom

Da fêmea a versejar.

8

Hoje já vejo calcinha

Lado a lado com cueca

Em bancas ou cordelteca

Uma com outra se alinha

Pois antes só homem tinha

Esse lugar ocupando

Mas a coisa foi mudando

Pra nossa felicidade

Chega, enfim, a igualdade

De gênero se irmanando.

9

Ser cantada ou escrachada

Ou ser musa de poeta

Da mulher não era a meta

Eu não estou enganada

Sem se fazer de rogada

Ela então se resolveu

E seu cordel escreveu

Dando fim a tirania

Nasceu cordel de Maria

Cresceu e sobreviveu.

10

Sem drama e sem salseiro

O homem não relutou

A mulher ele aceitou

Acabou sendo parceiro

Age no mesmo terreiro

Mas no fundo a gente sente

Que ainda é diferente

A condição feminina

O homem sempre termina

Com vantagens, claramente.

11

Com decote ou sem decote

A mulher chega e abusa

Enfeita sacola e blusa

Canta dança e dá pinote

Perfuma bem o cangote

Em cada apresentação

Faz a sua saudação

Sempre em alto e bom som

Com a boca de batom

Capricha na louvação.

12

Louva a Matuta fogosa

Que se vestia de chita

Botava laço de fita

Só para ficar mimosa

Louva a cabocla cheirosa

Que vivia no sertão

E dançava São João

Nos bons tempos de fogueira

Toda jeitosa e faceira

E seguindo a tradição.

13

Louva a famosa Maria

Parceira de Lampião

Que gostou do Capitão

E largou sua moradia

Pra viver como queria

Ao lado do cangaceiro

Sua paixão o parceiro

Que cruzou em seu destino

Um romance nordestino

Do casal aventureiro.

14

Louva a mulher aguerrida

Que pelo mundo se embrenha

Que é Maria da Penha

Que não desistiu da vida

E disso ninguém duvida

É verdade absoluta

É comandante da luta

Que favorece a mulher

E pelo o que faz requer

Respeito a sua conduta.

15

Viva a mulher cordelista

Que inovou no cordel

Que faz versos à granel

No assunto é estilista

Sempre tem nova conquista

É artesã da cultura

Agrega a literatura

Poesia e artesanato

Entrelaça em cada ato

Subsídios pra leitura.

16

A fêmea que se escondia

Nome e sobrenome tem

Faz o cordel e faz bem

É membro de academia

No mundo da poesia

Que hoje se descortina

Com a verve feminina

De sortilégio replena

A mulher se mostra plena

Escreve, assume e assina.

*

Xilo de Jefferson Campos

*

dalinhaac@gmail.com

terça-feira, 27 de julho de 2021

A primeira mulher cordelista a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Literatura de Cordel.


A primeira mulher cordelista a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Literatura de Cordel.

A descoberta!

Tudo começou com a indagação do poeta de cordel e pesquisador, Kydelmir Dantas, que me fez a seguinte pergunta: - Qual foi a primeira cordelista a tomar posse na ABLC e em que ano?

Eu não tendo resposta no momento, indiquei outras fontes a serem pesquisadas, entre elas o próprio presidente da ABLC, atualmente presidente de Honra, Gonçalo Ferreira da Silva.

Hoje, logo cedo, recebi uma ligação do mestre Gonçalo, papo vai, papo vem, lembrei-me de fazer a pergunta feita por Kydelmir Dantas.

Qual não foi minha surpresa, ao ouvir de Sr. Gonçalo, que a primeira mulher legitimamente cordelista, a ocupar uma cadeira na ABLC, teria sido eu, Dalinha Catunda.

Outras mulheres passaram pela ABLC, cada uma com sua competência, mas sem escrever literatura de cordel.

Para registro de pesquisas, segundo Gonçalo Ferreira da Silva, presidente na época, a primeira mulher a tomar posse na Academia Brasileira de Cordel, foi a cearense de Ipueiras, Maria de Lourdes Aragão Catunda, conhecida como Dalinha Catunda.

Filha de Espedito Catunda de Pinho e Maria Neuza Aragão Catunda. Nascida na cidade de Ipueiras, em 28 de outubro de 1952.

A posse se deu no dia 20 de setembro de 2008, passei a ocupar a cadeira número 25 que tem como patrono Juvenal Galeno, poeta e folclorista cearense.

Quando entrei para academia, levei do meu pequeno acervo apenas cinco títulos publicados: O Forró de Zeca, O jumento do Maurício, A Panela Remendada, A Rosa Apavorada e A Donzela Que Virou Índia.

Através de mim outras cearenses entraram nessa academia e hoje mantemos um ótimo intercâmbio cultural o que me deixa muito orgulhosa.

Dalinha Catunda, cad. 25 da ABLC

dalinhaac@gmail.com

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Glosas- NÃO DEIXO O HOMEM BATER NEM EM MEU ATREVIMENTO!


 

 

NÃO DEIXO O HOMEM BATER

NEM EM MEU ATREVIMENTO!

1

Acho muita covardia

Homem bater em mulher

Quem ser respeitado quer

Não pode entrar nessa fria

Pois quem a lei desafia

Causa seu próprio tormento

Passa a ser mau elemento

E começa a padecer.

NÃO DEIXO O HOMEM BATER

NEM EM MEU ATREVIMENTO!

Mote e glosa de Dalinha Catunda

2

Não me bate nem com flor;

Flor é pra ser ofertada,

A mulher quando ultrajada,

Qualquer que seja o agressor,

Que nada sabe do amor;

Não serve nem pra jumento,

Pois este tem sentimento;

Castigo é a " penca" perder:

Não deixo o homem bater

Nem no meu atrevimento!

Mote de Dalinha Catunda ,

Glosa de Bastinha Job

 3

Gosto de ser respeitada

E também de respeitar

Se respeitar é amar

Eu amo e me sinto amada

Nunca fui desrespeitada

Eu não dou vez a jumento

Pois eu fiz um juramento

Pra o homem não me ofender

NÃO DEIXO O HOMEM BATER

NEM EM MEU ATREVIMENTO!

Glosa - Vânia Freitas

Mote de Dalinha Catunda

4

Quem agride uma mulher

Por ciúme ou por despeito

Ou por se achar no direito

De forçar o que ele quer

Não passa de um pangaré

Desses bichado e sarnento

Findando no isolamento

Sem ninguém pra defender

NÃO DEIXO O HOMEM BATER

NEM EM MEU ATREVIMENTO

Mote: Dalinha Catunda

Glosa: Giovanni Arruda

5

Nunca elevaram a voz,

E fosse pai, irmão ou marido.

Eu não tolero alarido.

Da nascente até a foz,

Ninguém será meu algoz.

Nunca aceito ciumento,

Me enfrente só no talento.

Anote isto e, podes crer:

NÃO DEIXO O HOMEM BATER

NEM EM MEU ATREVIMENTO!

(Mote: Dalinha Catunda

Glosa: Rosário Pinto)

6

Bater em mulher se chama

Um ato de covardia

Coisa de mente vazia

De um covarde sem-futuro

Isso eu lhe asseguro

Nesse tal procedimento

Quando a panela ferver

NÃO DEIXO O HOMEM BATER

NEM EM MEU ATREVIMENTO!

Glosa: Claude Bloc

Mote: Dalinha Catunda

*

Xilo de Erivaldo Ferreira

Roda de glosa coordenada por Dalinha Catunda.

Obrigada pela interação, poetas e poetisas.

 

NÃO DEIXO O HOMEM BATER NEM EM MEU ATREVIMENTO!


 

NÃO DEIXO O HOMEM BATER

NEM EM MEU ATREVIMENTO!

*

Acho muita covardia

Homem bater em mulher

Quem ser respeitado quer

Não pode entrar nessa fria

Pois quem a lei desafia

Causa seu próprio tormento

Passa a ser mau elemento

E começa a padecer.

NÃO DEIXO O HOMEM BATER

NEM EM MEU ATREVIMENTO!

Mote e glosa de Dalinha Catunda

segunda-feira, 28 de junho de 2021

O CARREIRÃO DA DESDITA


 

CARREIRÃO DA DESDITA

*

Que peste medonha!

Meu Deus, que agonia...

Que rouba do povo,

A sua alegria.

É a Besta-fera,

Que mata e arrepia.

É o trem da morte

Que não alivia.

Me acuda Jesus!

Socorro Maria!

Livrai nosso povo,

Desfaça a magia,

Dê fim na desgraça,

Que nos contagia.

Eu já fiz promessa,

Rezo todo dia,

Velar nossos mortos

A gente queria

Um enterro decente

Antes se fazia

Tudo virou cinzas

Nessa pandemia.

*

Versos e foto de Dalinha Catunda

dalinhaac@gmail.com

sexta-feira, 11 de junho de 2021

CORDEL A REVOLTA DE SANTO ANTÔNIO


 A REVOLTA DE SANTO ANTÔNIO

1

Santo Antônio é Santo bom

Mas ô santo pra sofrer

Quando chega o mês de junho

Aumenta seu padecer

Mulheres desesperadas

Fazem tantas presepadas

Que o Santo falta é morrer.

2

É mulher nova e bonita,

Mulher velha e pregueada,

É quenga metida a santa

Que não quer ser mal falada

Tem cunhã, tem cutruvia

Rezando da noite ao dia

Pra virar mulher casada.

3

Na igreja de Santo Antônio

Chega até ter confusão

Outro dia numa briga

No sair da procissão

Uma viúva afobada

Por outra foi empurrada

Quase o santo foi ao chão.

4

Enquanto era só pedido

O santo até entendia

Porém depois começaram

Com a tal da simpatia

E pra dizer a verdade

Faziam tanta maldade

Que o santo se maldizia:

5

-Onde é que já se viu

Roubar do santo o menino

Quem comete um ato desses

Não tem o perdão divino

Pode fazer mil pedidos

Pois eu tampo meus ouvidos

Pra quem vem com desatino.

6

-Tem mulher que acha pouco

E para a graça alcançar

Numa vasilha com água

Me botam pra mergulhar

Pra baixo fica a cabeça

Não tem cristão que mereça

Esse castigo levar.

7

Santo Antônio aperreou-se

E sentiu-se até perdido

Quando viu tanta mulher

Todas querendo marido:

- Uma coisa vou dizer

Não sei o que vou fazer

Em meio a tanto pedido.

8

Ficou logo revoltado

E falou para Jesus

Eu não aguento mais

O peso da minha cruz

Ser santo casamenteiro

E com todo esse salseiro

Vos digo: Não me seduz.

9

Jesus Cristo preocupado

Com aquela situação

Disse para Santo Antônio

É só sua essa missão

Mas pode no céu buscar

Uns Santos pra lhe ajudar

Eu não faço objeção.

10

O santo com alma nova

Partiu pra sua empreitada

Escolheu a dedo os santos

Pra auxiliar na jornada

Eram bem experientes

E a Jesus eram tementes

Não iam faltar por nada.

11

Santo Antônio muito alegre

Começou a organizar

Virgens ele casaria

Isso não ia mudar

Delas ele tinha dó

Deixá-las no caritó

Não dava nem pra pensar.

12

Falou com o São Gonçalo,

E Com São Judas Tadeu

Achou por bem convidar

São Jorge o amigo seu

E por fim Santo Expedito

Para acabar o conflito

Com o aval que Jesus deu.

13

As chamadas periguetes

São Gonçalo vai casar

Também as raparigueiras

Que gostam de badalar

Pois é santo violeiro

Em cabaré ou terreiro

Ele não paga pra entrar.

14

Já o São Judas Tadeu

É com as tribufus, que fica

Santo das causas perdidas

Já casou baranga rica

E as damas sem embaraço

Que já não tem mais cabaço

E gostam mesmo é de pica.

15

Para São Jorge Guerreiro

Com sua espada na mão

Ele fica responsável

Por todo e qualquer canhão

Pelas mocréias da vida

Que o pessoal apelida

As coitadas de dragão.

16

E finalmente eu repasso

Para o bom Santo Expedito

Aquelas desesperadas

Que tem fogo no “priquito”

Que querem casar urgente

O santo é bem competente

Não vai falhar nesse rito.

17

Os santos não reclamaram

E aceitaram a provação

E sendo aquela pra eles

A mais difícil missão,

Pois congregar com mulher

Nem o capiroto quer

Ouviram isso do cão.

18

Foi assim que Santo Antônio

Sossegou o seu juízo

Quem queria se casar

Não ficou no prejuízo

Quem pedia casamento

Já firmava o juramento

Se case que eu ajuízo.

19

Eu acho que Santo Antônio

Abusou da rebeldia

E mesmo estando irritado

Com penas que recebia

De tanto ser afogado

Devia estar conformado

Com a cabeça mais fria.

20

Eu até posso entender

Seu estado de exaustão

Com pedidos absurdos

Com tanta judiação

Mas ele pegou pesado

Parece ter se vingado

Nessa distribuição.

21

Espero que cada santo

Dê conta do seu recado

Santo Antônio tinha prática

E deixava bem casado

O casal merecedor

De viver um grande amor

Tudo de papel passado.

22

Se o santo se aborreceu

Essa culpa não foi minha

pois nunca lhe importunei

com reza ou com ladainha

Vivo, bem, amancebada

Sem papelada assinada

Vivo assim minha vidinha.

23

Uma coisa vou dizer

Só para reafirmar

Casei-me na igreja verde

Sem papel algum passar

Sem simpatia ou promessa

Também nunca tive pressa

Mas arranjei um bom par.

24

Não pedi licença a musa

Mas a Deus peço perdão

Por esses versos que fiz

Com tanta profanação

Não me queimem na fogueira

Foi só uma brincadeira

Sem reza e sem oração.

*

Apresentação ( Bastinha Job)

*

Relevante petição 

Feita em versos por Dalinha

Num cordel que se alinha

A uma resolução, 

Uma urgente solução 

Dirigida a vários santos:

Santo Antônio entre outros tantos 

Citados nestas setilhas

E todas em redondilhas

Rimadas cheias de encantos

 

Quem quiser desencalhar

Dalinha dá a receita

Picante, mas que deleita 

Num hilário linguajar:

Ao santo certo rezar,

Que sua cara-metade, 

Vai lhe encontrar de verdade

E feliz lua de mel

A autora do CORDEL 

Deseja com amizade!

*

Xilo: Maércio Siqueira

dalinhaac@gmail.com