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quarta-feira, 10 de outubro de 2007

" TITUNDA"


Essa crônica é uma homenagem a Tunda e as crianças que viveram esse tempo mágico em Ipueiras.

Foto:http://www.centrovegetariano.org/images/articles/borrego.jpg

POR DALINHA CATUNDA

Durante muitos e muitos anos, viveu na pequena Ipueiras um humilde carreteiro, que tinha o poder de encantar e atrair as crianças com suas fantásticas histórias.

Nesse tempo, o meio de transporte usado para conduzir as pessoas de uma cidade para outra era o trem. Tunda era um dos carreteiros, um negro forte e simpático, que em busca de uns trocados carregava a bagagem dos viajantes até o destino combinado.

Na cabeça do bom homem as malas chegavam aos seus donos, pois carro era artigo de luxo na época. Ele era pobre, mas tinha um tesouro que dividia sem egoísmo com as crianças: sua alegria.

Tinha o poder de manter a meninada da cidade numa eterna esperança de um dia ganharem um carneirinho. Sempre que passava por uma delas, repetia a mesma frase: 'Titunda' vai trazer um carneirinho pra você, viu?

- Titunda, quando você vai trazer meu carneirinho?

Era a frase que ele mais ouvia da meninada.

-- Amanhã, amanhã o 'Ti' trás.
--- Cadê meu carneirinho? - perguntava outra.

Tá lá no céu --- e apontava pra cima, rindo.

Era hoje, amanhã, depois e nunca chegava o tal dia. Assim foi com gerações e gerações, alegremente iludidas com a história do carneirinho. Certo dia, a cidade que sempre vivera debaixo de um céu azul, presenciou um fenômeno singular.

Ao badalar do sino da igreja, começou a aparecer no céu chumaços de nuvens brancas em forma de carneirinhos. Em pouco tempo, o firmamento estava completamente tomado. Quando o sino parou, todos olhavam para o céu que parecia formar uma bela gravura.

Do meio daquelas imagens feitas por nuvens, uma parecia ser a de Titunda a segurar um cajado reluzente comandando os carneirinhos que nunca chegaram às mãos das crianças, mas certamente permaneceram em seus sonhos. Quanto ao velho carreteiro, este, naquele dia, chegava ao céu, onde dizia estar seu grande rebanho.

domingo, 7 de outubro de 2007

ANSELMO VIEIRA


Foto: Leonardo Mota e Anselmo Vieira
ANSELMO VIEIRA
Um Cantador das Ipueiras

Anselmo Vieira de Souza, nascido nos idos de 1867, viveu por muito tempo, na cidade do Ipu. Mas na verdade, é um ipueirense nascido na fazendola Ilha Grande, perto de Nova-Russas, no município de Ipueiras.

Completamente analfabeto, mas apaixonado desde criança pelos desafios que escutava nas pelejas dos menestréis que circulavam pela sua região, não demorou a fazer versos e se tornar um repentista de renome, aparecendo entre os mais consagrados cantadores do Nordeste que foram biografados por Leonardo Mota, escritor que se dedicou a resgatar essa cultural oral enriquecendo o folclore nordestino.

Anselmo Vieira nunca viveu do ofício de cantador, somente nos tempos das grandes secas, ele saia pelo mundo atrás de ganhar o pão de cada dia usando seus dotes de repentista,

De seu repertório pincei esses versos que representam, muito bem, a situação do nordestino que se transforma em nômade ante a desgraça da seca:

“Patrão, eu to lhe pedindo
Sua boa proteção,
Deixei o meu natural,
A poeira do meu chão,
E vim pra este lugá
Coberto de precisão,
Me valendo dum e doutro,
Mode vê que é que me dão,
Só não quero que me digam:
“vá trabaia,seu ladrão”

O poeta e escritor Gerardo Mello Mourão, confessa que Anselmo Vieira é uma das referências em sua vida literata, pois muito se inspirou nos cantadores das feiras de Ipueiras, onde Anselmo era atração.
Em seu livro “Rastro de Apolo” enaltece o vate ipueirense louvando-o com alguns versos.

Ariano Suassuna, numa entrevista, admite que, “O Auto da Compadecida” foi baseado nos versos de três repentistas nordestinos, sendo um deles o caboclo Anselmo Vieira.

Enquanto Gerardo Mello Mourão, Ariano Suassuna e Leonardo Mota, dão crédito aos feitos desse competente cantador analfabeto que bordou com lindas palavras nossa história ipueirense, a própria Ipueiras, é analfabeta em relação a Anselmo Vieira de Sousa que não deixa de ser um patrimônio cultural dessa cidade.
Dalinha Catunda
Ipueiras-Ce

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Poetas Populares


Foto: Dalinha entre os poetas populares de Ipueiras.

Poetas Populares

Confesso não sou repentista,
Mas versos eu sei fazer.
Louvar os artistas da terra,
Louvo com todo prazer.
Louvo de dia e de noite,
Louvo até o sol nascer

Me chamo Dalinha Catunda
Poeta eu sou também
Falo da nossa Ipueiras,
Do povo que quero bem.
Dos cantadores e repentista,
Poetas que a terra tem.

Na beleza do improviso,
Na arte do bom repente,
Louvo Raimundo lira
Que é um vate competente.
Tomara que ele espalhe,
Entre nós sua semente.

Respeito seus cabelos brancos
Também respeito sua idade,
Porém seus versos-menino
São cheios de velocidade.
Não tropeça, nem gagueja,
É o rei da vitalidade.

Sua caneta é a enxada,
Sua tinta é o suor.
Louvo com gosto o poeta,
Que se chama Luis Ló.
Na arte de fazer versos,
Não conheço outro melhor.

É no cabo da enxada,
Que ele cultiva seu chão.
Enquanto capina faz versos,
Pra alegrar seu coração.
Tenho orgulho desse cabra,
Que nasceu em meu sertão.

Simão Brito impõe respeito,
E tem minha admiração,
Os assuntos sociais,
Para ele, sagrados são
Cada cordel que escreve
Trás no fundo uma lição

Edílson Sales é poeta,
Radialista e imitador.
Alegra a nossa gente,
Com inigualável humor.
É mais um fruto da terra,
Demonstrando seu valor

Grande safra de poetas
Tem o nosso fértil chão:
Luis Vieira, Gonçalo Figueiras
E o poeta Raimundão,
Que no dom de versejar
Preservam uma tradição.

Louvo com muito amor
E repito a louvação,
A poetisa da terra
Maria Neusa Aragão
Que tem por sua cidade,
Mais que amor, adoração.

Já falei e já louvei,
Cada um de meus irmãos,
Nascidos na mesma terra,
Criados no mesmo chão.
Se não citei todos agora,
Cito em outra ocasião.

domingo, 30 de setembro de 2007

O Drama da Égua da Secretária


O DRAMA DA ÉGUA DA SECRETÁRIA
Sou nordestina. Cearense, lá das Ipueiras. Moro no Rio de Janeiro há bastante tempo. Confesso que nunca chegou a me incomodar a diferença de cultura. Mas, de uns tempos para cá, o bicho pegou feio.
Imaginem! Tinha eu um telefone bem simples, que funcionava às mil maravilhas. Nunca me deu aporrinhações, a não ser uns poucos trotes, que respondi à altura.
Inventei de comprar um telefone moderno, com secretária, relógio, redial e tudo a que tinha direito. Tempos modernos... Render-me à tecnologia era o mínimo que eu poderia fazer.
Foi aí que começou o desatino. Empolgada, gravei logo duas mensagens, crente de que tava abafando. Quando me cansava de uma, substituía pela outra. Não sei qual das duas escutou mais desaforo.
Escute só o que minha própria família, sangue do meu sangue, teve coragem de fazer comigo.
Ligou-me mamãe... Não estando eu em casa, a secretária deu o ar da graça. O negócio foi feio. Não se entenderam mesmo, foi um tal de bater telefone, que só vendo.
Minha mãe, ofendidíssima, me liga em outro momento e, num misto de raiva e queixa, solta os bichos:
– Ooora Dalinha, eu liguei pra ti e uma cunhã sem-vergonha falou, falou, e depois bateu o telefone em minha cara. Onde já se viu?! E o pior é que eu acho que conheço aquela voz.
– Mãaaae, é a secretária!
Passou. Não demorou muito, nova encrenca, e tome desaforo. Meu irmão Tony... Achando-me depois de muitas tentativas.
– Dalinha, já liguei umas duzentas mil vezes e nunca te encontro. Eu tô pra mandar aquela tua secretária tomar no ...
– Ô Tony! Pelo amor de Deus, tenha dó!
Novas explicações! Diante de tanta incompreensão, resolvi dar férias a tal secretária, até que as coisas se acomodassem e a novidade fosse digerida.
Fim do descanso, retorno com a secretária.
Em pensamento, digo: Agora vai.
Vai sim, no mesmo rumo... Dessa vez, papai... Queixa grande... E bote carão!
– Que diacho é isso, Dalinha? Ligo, ligo, ligo, toca, toca, toca e ninguém atende. Agora liguei e uma égua véia sem-vergonha me disse que tu não tava em casa. Onde é que nós estamos? Ainda por cima me deixa falando sozinho... Isso é um desrespeito.
– Ô papai, essa “égua véia” sou eu. Sou eu, pai!...
Com Tony e papai me esmerando nas explicações, contornei a situação.
E mamãe? Mulher sentida e de brios...
A história até hoje rende.
Ela diz que tem quase certeza que de que aquela voz era a minha, que nunca vai engolir essa desfeita e jura de pé junto, em tom de queixa, para os outros irmãos que lhe bati o telefone na cara. Durma, com um barulho desses!
Eu, pobre mortal, além de aturar os insultos da família, que mora no Nordeste, tenho que aturar também a gozação de filhos e marido carioca. Pense!
Dalinha Aragão Catunda

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O Menino do Mirador




O Menino do Mirador

Gonçalo foi um menino que aprendeu o oficio de ferreiro muito cedo com seu pai. Com ele aprendeu também a arte de tocar violão. Pobre, porém feliz, assim vivia Gonçalo no seu velho Mirador, município de Ipueiras.

Criado no mato, apaixonado por árvores e pássaros, chorou longe de sua terra natal quando atrás de trabalho teve que se ausentar. Sentia saudades dos velhos tempos , do feijão com toucinho e rapadura, do seu cavalo de estimação e das serenatas que fazia ao luar.

Quantas noites em claro... relembrando suas caminhadas no mato e repetindo para si o nome de cada árvore, fruta e animal que fizeram parte de sua vida no interior.

E lembrava da nambu e do caburé que cantavam de noite.Lembrava das caçadas aonde o patuá vinha cheio de preá, tatu, peba e mambira, e não esquecia o canto do cupido, do sabiá, do canário, do galo campina e tantos mais.

Sentia saudades das frutas silvestres que alegraram seu paladar de menino do interior, maracujá,canapúm,,trapiá,, genipapo entre tantas outras que guardou em sua lembrança.

E como esquecer as velhas árvores que sombreavam seus caminhos, ameixa, pereiro branco, Jucá, mulungú, mororó e o angico de resina dourada.

Como as árvores, os pássaros e os bichos ele também era raiz daquele chão, fruto daquela terra que da cabeça não lhe saia.

Viu a beleza do Rio de Janeiro, ganhou dinheiro em Brasília, mas tudo que ele queria era voltar a sua terra, tocar valsas em seu violão, beber um trago com os amigos e ouvir conversa fiada nas bodegas, como fazia antigamente.

Era um vitorioso, ganhar o mundo era ganhar desenvoltura, capacidade. De um simples pedreiro, Gonçalo passou a mestre de obra. Mas ainda era pouco para aquele que fora um menino sonhador. Era hora de voltar e abraçar sua terra e ser abraçado por ela.

E voltou ao velho e tão sonhado ninho. Casou, teve filhos, e governou Ipueiras durante seis anos, onde deixou seu nome escrito nas páginas da história ipueirense: Gonçalo Erasmo de Medeiros, foi prefeito de Ipueiras.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Estação do Amor


ESTAÇÃO DO AMOR


Se a primavera não trouxe
As flores que tanto querias,
Não desista dos teus sonhos,
Há primaveras sombrias.

Se plantaste tantos beijos
E só colheste saudades,
No chão cultivado
Faltou luz, fertilidade.

Por isso pega a enxada
E vai trabalhar outro chão.
Há flores esplendorosas,
Nascendo em pleno verão.

Não há tempo propício
P'ra se colher rosa, flor...
É só plantar com carinho,
Na estação do amor.

Sempre vivas as paixões,
Sempre hão de florescer.
Em terra bem adubada.
Não existe o fenecer.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Aniversário da ABLC

Foto: Madrinha Mena, Dalinha Catunda e Gonçalo Ferreira da Silva

Aniversário da ABLC

Nesse 17 de setembro de 2007, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel completou 19 anos de existência. Existência essa que se deve principalmente a grande dedicação do seu presidente Gonçalo Ferreira da Silva e da não menos dedicada, Maria do Livramento da Silva ou seja: A Madrinha Mena que junto a Gonçalo formam a base firme dessa estrutura cultural.

A reunião transcorreu num clima animado, onde diversos poetas apresentaram seus cordéis sob os aplausos dos presentes.
Eu, Dalinha Catunda fui a primeira convidada. Em homenagem aos nordestinos que ali se encontravam falei sobre migrantes e declamei um poema com esse tema.

Em seguida Sepalo Campelo fez uma merecida homenagem, ao já falecido, Francisco Silva Nobre que escreveu e publicou mais de cem livros, era um cearense de Morada Nova, grande incentivador da cultura em geral.

Marcus Lucena, cantor, cantador radialista, entre outras coisas, falou da Associação dos Amigos e Defensores da Feira Nordestina, criada recentemente com o intuito de devolver ao nordestino o espaço que hoje se encontra totalmente descaracterizado servindo a outras causas. A peleja é pela volta do espaço real dos nordestinos, onde o cordel e a cultural retomem o lugar merecido.

Não é possível falar de tudo e de todos porém ressalto a apresentação de Manoel Santa Maria que lá esteve com sua namorada Cátia. Um Mineiro de nascimento com uma alma tipicamente nordestina.

Destaco também a presença do cordelista do Rio Grande do Norte Izaías Gomes de Assis que arrancou aplausos da platéia e nos ofertou seus cordéis.

Entre os presentes a participação de Sergival oriundo de Aracaju que nos presenteou com um interessante trabalho cantado e batido na palma da mão.

Não poderia deixar de falar da figura sempre alegre do Campinense, do apoio da Maria do Rosário, sempre pedindo pela ABLC. Do bonito depoimento do Sr. Cavalcante. E das presenças indispensáveis de Dr William J. G. Pinto e Ivamberto.

Isso é mais ou menos um resumo do que fora a plenária em homenagem aos 19 anos de ABLC. Parabéns ao presidente Gonçalo e a Madrinha Mena por essa dedicação a cultura nordestina.



terça-feira, 18 de setembro de 2007

O Rádio e Tony Aragão

O Rádio e Tony Aragão

Tony Aragão já passou por quase todas as rádios que passaram por Ipueiras, e não poderia ser diferente. Seu carisma, seu talento, seu jeito singular de apresentar um programa fazem dele figura indispensável nas rádios da cidade.

Atualmente, pertence ao quadro da assessoria de imprensa da prefeitura de Ipueiras, cobrindo eventos oficiais e participando do programa canal livre, na rádio Macambira , um programa de utilidade publica.

Na rádio Macambira, além de apresentar jornal, esportes, teve uma gama de programas nos mais variados horários. Entre eles: Voz e Violão, Bom dia Amizade, Tarde Jovem, Baião-de-dois e Ipueiras e Nossa Gente.

“O Ipueiras e Nossa Gente”, foi um programa idealizado por mim e Tony Aragão. A proposta era prestigiar os valores da nossa terra. Durante um ano participei via telefone, através de gravações e muitas vezes ao vivo. Foi um programa de sucesso. Tive um grande prazer em participar dessa empreitada com esse talentoso radialista.

Artista de talento comprovado. Dono de uma voz belíssima, Tony Aragão já cantou, em aniversários, casamentos, participou de conjuntos musicais, e ainda hoje além de cantar em eventos, é um seresteiro de mão cheia e um violonista de primeira, em plena atividade.

Atualmente Tony Aragão é contratado da FOX FM, rádio moderna que veio para fazer escola em Ipueiras e agregar os ipueirenses que vivem nesse mundão de meu Deus. Totalmente digitalizada nos oferece a oportunidade de uma tão sonhada linha direta com a terrinha. Basta acessar: http://www.voxfm.com.br/portalvox/index2.php e correr para o abraço.

Rádio café é o programa matutino apresentado por esse radialista ipueirense, começa as cinco da manhã e segue até as sete. Entre musicas sertanejas, forrós, serestas e outros ritmos, a cultura é prestigiada em forma de, lendas, causos e homenagens aos mais variados expoentes de nossa musica popular.

Enfim falar de Tony Aragão é falar de minha própria história, pois alem de ser sua irmã, muitas vezes trabalhamos juntos em prol da cultura de Ipueiras.


segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A passagem do Rei em Ipueiras

Foto:http://forrodicumforca.weblogger.terra.com.br/img/lg.gif
A Passagem do Rei em Ipueiras

Era um dia de domingo, dia de trem vindo de Fortaleza para Crateús. A estação como de costume estava repleta de ipueirenses que antigamente tinham como lazer apreciar a passagem do trem.

Nesse dia o trem atrasara, para a felicidade e sorte dos ipueirenses que testemunharam a passagem de um Rei em nossa cidade.
E foi naquele dezenove de junho de 1966, que enquanto todos esperavam o trem, apontava na estrada que vem do Ipu, causando grande admiração, uma Rural Wills, coisa rara no interior.
Para surpresa dos que ali se encontravam desce da rural o já famoso Luis Gonzaga, nosso eterno Rei do Baião e seus tocadores.
Demonstrando fome, encosta na Banca de Dona Maria Capoeira e pede para que ela lhe prepare bastante orelha de porco, apelidando assim, um saboroso bolo de milho vendido pela cafezeira.

Depois da fome saciada em meio aos curiosos que se acotovelavam para vê-lo, puxou o dinheiro para pagar a conta, mas Zequinha Bento, que o reconhecera, já havia pagado a despesa. E pediu para o rei cantasse um pouco pois era seu fã.

A resposta do velho lua, foi que só cantaria se ele vendesse dez livretos, com o título de: “O Sanfoneiro do Riacho da Brígida” escrito pelo jornalista, Sinval Sá, contando a vida do famoso ícone nordestino.
Bento conseguiu vender somente cinco, mas o rei não se fez de rogado.
Subiu com seus companheiros num banco de madeira que havia na estação, arrastou a sanfona velha e cantou para delírio daquela platéia feliz, preciosidades de seu repertório como: O Xote Das Meninas, Asa Branca, A Volta Da Asa Branca e Ô Veio Macho.

Antes de cantar o Gonzagão observou a platéia e se dirigiu a um dos componentes do conjunto em voz alta:---Toím, Tu já reparou que aqui de “nego” só eu e tu?

Infelizmente não presenciei esse importante acontecimento que ficou marcado em nossa história, apenas ouvi mais de uma vez os relatos de meu avô Gonçalo Ximenes Aragão que era chefe da estação ferroviária de Ipueiras, a famosa RVC que os gaiatos traduziam como:Rapariga Velha Cansada.

Além do meu avô, credito retalhos desse episódio a Tadeu fontenele e Zequinha Bento personagens da mesma história.







domingo, 2 de setembro de 2007

A Donzela Que Virou Índia


A Donzela que Virou Índia

*

Contam-me que certa vez,

Pras bandas do Ararendá

Um índio roubou Tereza

Pra com ela se casar.

A família ficou louca,

Acho que dormiu de touca,

Pra donzela se mandar.

*

De família conceituada

De um clã de tradição

A mocinha raptada,

Da família dos Mourão,

Mas dizem que na verdade,

Ela se foi por vontade

Seguindo seu coração

*

Família desesperada

A procura da donzela,

Polícia e até cachorro,

Colocaram atrás dela.

Era bem grande a tristeza,

E por causa da Tereza,

Acenderam até vela.

*

Pele branca olhos azuis

Tinha a donzela bonita

Tinha o cabelo loirinho

Usava laço de fita

Pelo índio apaixonada

Meteu o seu pé na estrada

Deixando a família aflita

*

Passou dia passou noite,

Passou mês e passou ano,

Tantas luas se passaram,

Então veio o desengano.

Ele comeu a donzela,

Cozida numa panela,

O povo estava falando.

*

Ele não era antropófago

Nem a comeu na gamela,

Foi na rede de tucum,

Que ele traçou a donzela,

E todo ano nova cria,

A ex-donzela paria

Sem ligar para esparrela.

*

Aquela cultura indígena,

A branca tomou para si.

Adorava o Deus Tupã

A sua lua era Jaci.

Achou por bem se despir,

Para seu corpo sentir

Os raios de Guaraci.

*

Sobe rio, desce rio,

Assim vivia Tereza

Agarrada ao jacumã,

A curtir a natureza

E era tanta alegria,

Que ela contente sorria,

Usufruindo a riqueza.

*

O Conforto que ela tinha,

Na cidade, lá deixou

cama, chuveiro e penico,

Disso nunca reclamou.

As noites enluaradas,

De estrelas salpicadas,

Compensava o que largou.

*

Depois de muito tempo,

Um belo dia à tardinha,

Vestida de índia guerreira

Apareceu Terezinha

Dizendo ter se casado,

E tinha ali do seu lado,

Um monte de indiazinha.

*

Com uma flecha no ombro,

E na cabeça um cocar,

Assim desfilava a branca,

com penacho e com colar,

E nem mesmo Iracema,

A que de Alencar foi tema

Tantas penas soube usar.

*

Hoje vivendo na mata,

Numa aldeia, numa oca,

Aprendeu a se fartar

Entrando na mandioca

Rio a cima ela se joga

Em cima de uma piroga

Curtindo em sua maloca.

*

Cordel de Dalinha Catunda

Editado em 2007

dalinhaac@gmail.com