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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

MANDACARU




Artigo publicado no jornal O Povo de Fortaleza-Ceará
MANDACARU
Dizem que mandacaru não dá sombra nem encosto o que indiscutivelmente é uma verdade. Mas, há de se dizer que, para uma planta do porte do mandacaru, sombra e encosto passam a ser irrelevantes diante de seu significado maior para o nordestino.

Certa vez, em tempos de chuvas escassas, presenciei um vaqueiro que atendia pelo nome de Antonio Canapum, sapecando numa fogueira pedaços de mandacaru para queimar os espinhos com finalidade de alimentar o gado. Achei muito interessante e providencial.

Depois de certo tempo aprofundando-me no assunto descobri que o mandacaru é uma ótima forragem nativa e uma boa alternativa na alimentação do gado e outros animais nos tempos de seca.

Sendo uma planta nativa que resiste a longos períodos de estiagem por acumular água em seu caule, e por isso, muito procurada, aos poucos vai sumindo do sertão. Mas o sertanejo seguindo as dicas de pesquisadores da Embrapa pode plantar o mandacaru, tê-lo com abundancia, e não é uma tarefa difícil: “Basta ter uma planta mãe, cortar os pedaços dos galhos, deixar secar de um dia para o outro, e enterrar apenas uma parte no solo”.

Se o mandacaru não tivesse nenhuma serventia, mesmo assim, seria um colírio aos olhos do Nordestino. Sua beleza incomparável atrai os olhares mais exigentes, flores lindas, frutos de um vermelho deslumbrante tudo isso agarrado a um verde mais belo ainda.

Porém, mais do que um planta o mandacaru é um monumento que se ergue naturalmente em homenagem ao Nordestino que carrega com a mesma altivez seus espinhos e suas esperanças. É a beleza rústica que desafiando a seca, aparece por entre galhos secos e retorcidos no meio de pedras, confirmando no seu verde nossa esperança e no vermelho do fruto, a paixão do nordestino pela sua terra.


Texto e imagem de Dalinha Catunda

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

GENTE QUE EU GOSTO



A JOANINHA DA CHICA

Em cima de uma folha verde,
Veja que coisa mais rica!
Um insetozinho mimoso
Enfeita o blog da Chica.

Tem a roupinha vermelha
Salpicada de bolas pretinhas.
Você sabe o nome dele?
É simplesmente, Joaninha!

O blog:sementinhasparacrianças.blogspot.com é um das blogs de minha amiga Chica, direcionado a crianças. Eu gosto muito e recomendo.

Chica, este pequeno poema é um mimo que lhe faço pelo carinho e a atenção que tenho recebido de você e por acreditar em seu trabalho.
Beijos,
Dalinha Catunda
Imagem do blog sementinhasparacrianças

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

MINHA CASINHA AMARELA


Texto e Foto de Dalinha Catunda

MINHA CASINHA AMARELA

Amigo, você está vendo,
Esta casinha amarela?
Muitos anos eu passei
Feliz, morando nela.
Minha mãe já está velhinha
Mas vive na mesma casinha
E meu pai vive com ela.

Foi ali que dona Neuza,
Criou oito filhos dela.
Assoprando seu fogão,
Atiçando as panelas.
Apesar das dificuldades,
Era bem maior a felicidade
Do que as ditas mazelas.

Meu pai Expedito Catunda,
Seveeeero cuidava das crias.
Só mulheres, eram três,
E todas três eram Maria
Rosina, Dalinha e Déia,
E quando entravam na peia,
A vizinhança inteira ouvia.

Os Homens eram cinco,
E eu achava tão bonito,
A casa cheia de irmãos:
Eduardo, Cesar e Dito,
E ainda tinha no time,
Tony Aragão e Nelito.

Confesso sinto saudades,
Da casa, hoje amarela.
É minha casa da infância.
Mocidade eu passei nela.
Hoje sou somente visita
E o pranto turva-me a vista,
Ao ver minha casa singela.

Minha casinha singela,
Não sai do meu coração.
È uma casinha Amarela
Encravada lá no sertão.
Na cidade de Ipueiras
Tá minha morada primeira
Meu recanto de Emoção.

Amigo, você esta vendo
Esta mulher no portão?
De braços abertos pra vida,
É a poeta Neuza Aragão!
Esta casinha é tão bela,
Porque na frente tem ela,
Feito um anjo guardião.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O beija-flor apaixonado



Imagem: Benes Texto: Dalinha Catunda.
Publicado no Jornal Diário do Nordeste de Fortaleza, em 10 de Janeiro de 2010

O beija-flor apaixonado

Sobre a copa de uma bela goiabeira se espalhavam ramas de um pé de maracujá.

Lindas flores alternavam-se entre pequenos maracujás atraindo insetos de todos os tipos.Borboletas e besouros batiam asas na ânsia de sorverem o néctar de cada flor.

No meio de tantas flores, iluminada pelo sol e bordada pelo orvalho matinal, no topo da árvore, uma delas se destacava balançando-se graciosamente ao vento.

Assim como existem rainhas em colmeias, aquela bela flor de maracujá, pela sua exuberância, pela beleza e pelo brilho que o sol lhe emprestava ao tocar as gotículas de orvalho que se espalhavam pelo seu interior, era sem dúvidas a rainha daquele maracujazeiro.

Eu fiquei algum tempo observando o ir-e-vir dos visitantes que se deliciavam com as belas flores apresentando um majestoso espetáculo natural.

De repente, algo chamou a minha atenção. Um beija-flor paradinho olhava embevecido para a bela flor.E assim ficou por muito e muito tempo, até que um mangangá, saído não sei de onde, pairou sobre a flor.

Foi aí que, inesperadamente o quieto beija-flor saiu do seu estado de êxtase e partiu para cima do mangangá que surpreso, não viu alternativa a não ser fugir do ataque.

Mesmo assim, o beija-flor perseguiu o grande besouro, preto e amarelo, até deixá-lo bem longe daquela exuberante flor que tanto lhe encantava.

A flor de maracujá não podia dispensar as visitas do mangangá que tinha como função fazer a polinização do maracujazeiro. Entretanto, estava roxa de amor pelo o pequeno pássaro que não tirava os olhos dela e viravolta cobria-lhe de beijos.

O pacato beija- flor que vivia voando de flor em flor, com ciúmes do mangangá, deixou sua vida aventureira e guardou todos os seus beijos para aquela flor esplendorosa que cativou para sempre seu coração.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A CORUJINHA-CABURÉ E A BALADEIRA


A corujinha atinginda por uma pedra

Na mesa para ser reabilitada

Tentando o primeiro vôo depois de socorrida.
Fotos e texto de Dalinha Catunda

A CORUJINHA-CABURÉ E A BALADEIRA

No interior ainda é comum ver crianças com suas baladeiras atirando em aves e animais.
A baladeira é uma arma artesanal, conhecida também como estilingue, atiradeira. Ela é feita com uma pequena forquilha, onde se amarram tiras de borracha a cada lado. Essas tiras, por sua vez, são amarradas a um pequeno pedaço de couro furado dos dois lados.
O que para as crianças do interior é apenas um atraente brinquedo, na verdade, é fatal para nossas aves que muitas vezes são mortas apenas pelo prazer da diversão.
Passeando pelas veredas de meu sitio, deparei-me com um lindo par de olhos tristes, porém lindamente reluzentes que pareciam pedir-me socorro.
Agachei-me e segurei nas mãos uma linda corujinha-caburé, que não ofereceu resistência. É lógico que em outra situação seria diferente, pois esse tipo de ave é bastante agressiva.
Percebi que a linda corujinha-caburé, dona de belos olhos amarelos, estava ferida. Levei para o alpendre e com a ajuda de Edgar, um bom menino que adora preservar a natureza, cuidamos da corujinha que em pouco tempo voltou ao seu habitat.
A corujinha-caburé se destaca por seus vôos e cantos específicos. Tanto age tanto na calada da noite como no decorrer do dia. Alimenta-se de outras aves, insetos, lagartos e pererecas contribuindo para equilíbrio ecológico.
Enquanto crianças carentes de orientação caçam por mero prazer, a corujinha-caburé caça apenas para alimenta-se.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

CAMBUCÁ E JABUTICABA


Texto e foto de Dalinha Catunda

CAMBUCÁ E JABUTICABA
.
Já comi jabuticaba,
Achando ser cambucá.
Subi a Serra Grande
Para dúvida então tirar.
Na Lagoa dos Tavares
Andando pelos pomares
Explicou-me Baltazar:
.
Jabuticaba dá no tronco
Cambucá no galho dá.
Logo chegou dona Inês
Esposa de seu Baltazar
Com uma cuia cheinha
Dessa gostosa frutinha
Que acabara de catar.
.
Eu comi como criança,
Comi de me lambuzar.
Essa frutinha gostosa
Chamada de cambucá
Dá na Serra dos Cocos,
E qualquer um fica louco
Vendo a fartura por lá.
.
Cambucá e jabuticaba,
Tem a mesma aparência.
Fora da planta é difícil
Saber qual a diferença.
São frutas da mesma cor
Carregam o mesmo sabor
Portanto a mesma essência.
.

domingo, 31 de janeiro de 2010

AOS AMANTES DA FRUTA



Aos Amantes da Fruta

É difícil falar em Jatobá sem que o pensamento faminto e cheio de saudades não me transporte imediatamente até o Ceará, e conseqüentemente, a Ipueiras, cidade pequena, pacata, de povo acolhedor. Cenário mágico de minha infância e juventude, onde o velho rio Jatobá, feito cobra gigante, majestosamente serpenteia a cidade.

Jatobá, na língua guarani, significa "folha dura" ou "árvore de fruto duro". E hoje, esqueço um pouco o velho Jatobá para falar dessa frutinha gostosa, diferente, que também fez parte da minha meninice.

Nasci e me criei, ouvindo falar em jatobá. Desfrutei do rio e comi da fruta. Na dormência da memória, morava o jatobá que, provocado, eclodiu em boas lembranças. Parece que foi ontem... Eu menina, de pedra na mão, quebrando a tal fruta para comer a massa de gosto incomparável, de cor deslumbrante, amarelo fosforescente, a qual abrigava o jatobá dentro de sua casca dura e marrom. Após sujar a cara com o pozinho do jatobá, não sem antes ter me entalado por diversas vezes, era hora de brincar com os caroços, que eram tão bonitos quanto as cascas e a massa.

Em nome dessa álacre lembrança, munida de saudades, acessei a "Wikipédia" e fiz uma pequena pesquisa, que muito me agradou e certamente agradará os amantes da fruta.

Eis o obtido em relação ao Jatobá:

"Como planta medicinal, diferentes partes são usadas por indígenas do Brasil, Guianas e Peru contra diarréia, tosse, bronquite problemas de estômago e fungo nos pés."

"Entre seringueiros e moradores de regiões próximas das florestas onde se encontram, é comum utilizarem a casca da árvore para fazer um chá, também chamado de vinhos de jatobá. Acreditam que este chá é um poderoso estimulante e fortificante".

Pois é, amigos, Ipueiras em sua singularidade bebeu do Jatobá e, comeu o jatobá.

Texto: Dalinha Catunda

Imagem- guerrilhasdosjardins.zip.net/.../jatoba_157.jpg

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A SAGA DO SABUGO




ACRE, CEARÁ E MINAS GERAIS UNIDOS EM NOME DO SABUGO

A Revista Globo Rural do mês de outubro, publicou uma interessante crônica de Reinaldo Moraes intitulada, SABUGO SECO. No texto ele aborda discretamente uma das utilidades do sabugo.

No blog do Lima Coelho o assunto também foi abordado. Dos comentários surgiu a idéia de levarmos adiante o assunto.

O primeiro a publicar em blog foi Eurico Andrade. Após os comentários, meus e da Leila, ele sugeriu que fizéssemos uns versos para postarmos juntos.
Eis o resultado:

A SAGA DO SABUGO

Dalinha Catunda

.
Meu amigo quem acha,
Que o sabugo é vilão.
Nunca correu pro mato,
Bem cheio de precisão.
E após fazer o serviço
Com muito sacrifício
Lhe faltou papel a mão.
.
Um sabugo perdido,
No meio do milharal,
É a salvação da lavoura
E até que não pega mal.
Quem é que vai recusar,
De com ele se limpar
Se não há escolha afinal?
.
Não fiquem de boca aberta.
Nem pensem que é novidade.
Ele já foi muito apreciado,
Nos campos e na cidade.
Passou na bunda de gente
Que se dizia bem decente,
E de uma alta sociedade.
.
O sabugo meu camarada,
Já foi de grande valia.
Bunda de ricos e pobres,
Era ele quem acudia.
Mas o povo é bem cruel
Agora que existe papel,
O pobre sabugo repudia.
.
Nos tempos idos era tido,
Como a melhor solução.
Ele limpa, coça e penteia,
Propagava a população.
Que hoje o sabugo renega,
Mas já teve ele nas pregas,
Meu Deus! Que ingratidão.


Pau da Gata

Leila Jalul é procuradora aposentada da Universidade Federal do Acre.


Lá na terra onde eu morava
Para trás quarenta anos
O saneamento básico
Só existia nos planos
Governo só prometia
A construção das latrinas
Só de promessas o povo
Já não se satisfazia

Privada com fossa séptica
Era coisa de barão
O povim das capoeiras
Com sol, com chuva, ou trovão
Independente da hora
Tinha que correr pro mato
Pra não sofrer da agonia
Pra não morrer de vergonha
De borrar o próprio chão

Tinha um tal de pau da gata
Atravessado em fileira
Dispostos dois, lado a lado
Exigia do marmanjo
Um equilíbrio difícil
Se o tijolo fosse duro
O negócio era mais brando
Mas quando o troço era mole
Não raro fazia rima
A melequeira voltava
O que descia pra baixo
Voltava logo pra cima

Na escuridão do mato
Para limpar o senhorio
Valia qualquer folhagem
Só urtiga não servia
Em casa de muita gente
Até sabugo faltava
A molecada cagona
Comia coisa estragada
Acabando com o estoque
No paiol da milharada
A coisa ficava preta
Quando a turma enfileirada
Tinha que esperar calada
O desocupar do trono
Do maldito pau da gata

Hoje tudo é moderno
Acabou a desgraceira
De ficar acocorado
Na escuridão da mata
Fazendo as necessidades
No diabo do pau da gata
Qualquer casinha de pobre
Tem lá sua outra casinha
Às vezes bem perfumadas
Às vezes bem fedidinhas
Não há lugar mais distante
Que não saiba da existência
Do tal papel enrrolado
Que assumiu as funções
Do sabugo e das folhinhas.

As Utilidades do Sabugo
Eurico de Andrade é professor e jornalista em Brasília. Nasceu em Bambuí-MG.

Óia, panela, amanhã tem treis pião na capina do cafezal novo, viu?!...
E Tunicão bateu com a colher de pau na panela que, supitante, cozinhava feijão naquele começo de noite fria lá do sertão.
Quem não conhece o Tunicão, ao vê-lo conversar com a panela, pensaria tá lelé. Mas não. Ele fica na espreita, até a Deja aparecer na cozinha. Niquiela vem, ele bate na panela com a colher de pau e solta o verbo. A mulher se sente avisada e sabedora de que tem que fazer almoço para mais três pessoas no dia seguinte.
Assim é a vida dos dois que, há quase quinze anos - dos vinte e poucos em que estão juntos - não se falam. Deja faz tudo do terreiro pra dentro e Tunicão, do terreiro pra roça. Quando ela quer dar um aviso pro marido, chama a velha Joaninha que, contrariada, dá os recados pra lá e pra cá. Com Tunicão nada de rebaixamentos. Raramente tem o que falar à mulher. E, na hora do aperto, bate na panela e é atendido no ato.
Essa vida sistemática do casal não impede que os dois tenham lá suas intimidades. Mesmo de mal, - nem sabem mais porque brigaram -, dormem juntos e Tunicão, noite sim, noite não, procura a Deja. Ela se descobre e o recebe. Tão logo ele acaba, ela se recobre sem dizer um a.
Tunicão, é bom que se diga, não é homem de gastar dinheiro. Pra nada. Na sua terrinha, de uns poucos alqueires, produz o que precisa e fala pra todo mundo lá em casa só compro sal. E ai da panela, se ele achar que Deja não economiza e exagera no sal. Reclamação certa. Tunicão produz arroz, feijão, milho e café. Guarda o da despesa, vende o que sobra e bota o dinheiro no banco, na cidade. Pra misturar com o arroz e feijão cria uns porquinhos, umas galinhas e até umas vaquinhas. Vez ou outra mata um desses bichos pra servir de mistura. O excedente vende. Dinheiro no banco. Ainda pra mistura, o Tunicão planta umas mandiocas, inhame, batata-doce, abóbora, chuchu e, na horta de couve, couve, tomate, alface, almeirão caipira e outros verdes. Tem fruta também, no quintal. Laranja, ingá, banana, abacaxi, murici, articum e jenipapo. Dá pra ver que o homem é controlado e que comem bem naquela casa. Mas tem um problema. A economia do Tunicão impede que naquela casa haja papel. Lá não se lê, portanto não se compra jornal e nem revista. Como também não se compra pão, não se tem, então, saco de papel. E papel higiênico então, aquelas bundas não conheciam. Por mais que Deja reclame pra velha Joaninha, Tunicão não cede. E Deja, ao fazer suas necessidades lá pros lados das bananeiras, tem que se contentar com as folhas. Diferentemente faz Tunicão. Vai sempre pro lado do paiol, onde, dicocado, enquanto faz o serviço, debulha milho pros porcos e faz montes e mais montes de sabugos. Tunicão gosta é dos sabugos e filosofa pra companheirama:
- Óia, sabuco é um trem muito importante, gente! Cheio de utilidade. Além de limpá, o danado coça e ainda penteia... Tem coisa mais mió?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

TAPIOCA, SABOR DO NORDESTE



A TAPIOCA
*
É uma herança indígena,
Derivada da mandioca.
Guloseima que os índios,
Comiam em suas ocas.
E o nordestino adotou,
Por certo ele aprovou,
Em sua mesa a tapioca.
*
Quem jamais provou,
Precisa experimentar,
A tapioca de goma
Feita no meu Ceará.
Presença confirmada
Em todas as camadas,
Das terras de Alencar.
*
Há quem use na tapioca,
Novos ingredientes.
Recheada e colorida,
Com sabores diferentes.
Mas eu amo a tradicional,
Feita em minha terra natal,
Com sabor da minha gente.
*
Feita com a goma molhada.
E temperada apenas com sal.
Depois de úmida e peneirada
Dá-se continuidade ao ritual.
Com a frigideira bem quente
Destas que tem antiaderente
Conclui-se a receita afinal.
*
Frigideira estando no ponto,
Preste bastante atenção:
Coloque no fundo dela
Uma pequena porção
Da goma bem espalhada,
Que em seguida será virada
E está pronta a produção.
*
Mas tem só uma coisinha:
Eu não cheguei a explicar.
É que a boa tapioqueira
Sempre vira a tapioca no ar.
Se você não tem boa mão,
Nem quer sujar seu chão,
Invente seu jeito de virar.
*
Com um café quentinho
Eu comia em meu sertão,
Tapioca com muita nata,
Como manda a tradição.
E para ser muito sincera,
Tendo manteiga da terra,
Eu até dispensava o pão.
*
A tapioca é uma iguaria
Da culinária Nordestina.
Mas hoje já se espalhou,
Pois também é peregrina.
E percorre nos alforjes
Do nordestino que foge,
Buscando uma melhor sina.
*

Foto: 2.bp.blogspot.com/.../s400/tapioca2.jpg

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O DRAMA DA ÉGUA DA SECRETÁRIA



O DRAMA DA ÉGUA DA SECRETÁRIA
Sou nordestina. Cearense, lá das Ipueiras. Moro no Rio de Janeiro há bastante tempo. Confesso que nunca chegou a me incomodar a diferença de cultura. Mas, de uns tempos para cá, o bicho pegou feio.
Imaginem! Tinha eu um telefone bem simples, que funcionava às mil maravilhas. Nunca me deu aporrinhações, a não ser uns poucos trotes, que respondi à altura.
Inventei de comprar um telefone moderno, com secretária, relógio, redial e tudo a que tinha direito. Tempos modernos... Render-me à tecnologia era o mínimo que eu poderia fazer.
Foi aí que começou o desatino. Empolgada, gravei logo duas mensagens, crente de que tava abafando. Quando me cansava de uma, substituía pela outra. Não sei qual das duas escutou mais desaforo.
Escute só o que minha própria família, sangue do meu sangue, teve coragem de fazer comigo.
Ligou-me mamãe... Não estando eu em casa, a secretária deu o ar da graça. O negócio foi feio. Não se entenderam mesmo, foi um tal de bater telefone, que só vendo.
Minha mãe, ofendidíssima, me liga em outro momento e, num misto de raiva e queixa, solta os bichos:
– Ooora Dalinha, eu liguei pra ti e uma cunhã sem-vergonha falou, falou, e depois bateu o telefone em minha cara. Onde já se viu?! E o pior é que eu acho que conheço aquela voz.
– Mãaaae, é a secretária!
Passou. Não demorou muito, nova encrenca, e tome desaforo. Meu irmão Tony... Achando-me depois de muitas tentativas.
– Dalinha, já liguei umas duzentas mil vezes e nunca te encontro. Eu tô pra mandar aquela tua secretária tomar no ...
– Ô Tony! Pelo amor de Deus, tenha dó!
Novas explicações! Diante de tanta incompreensão, resolvi dar férias a tal secretária, até que as coisas se acomodassem e a novidade fosse digerida.
Fim do descanso, retorno com a secretária.
Em pensamento, digo: Agora vai.
Vai sim, no mesmo rumo... Dessa vez, papai... Queixa grande... E bote carão!
– Que diacho é isso, Dalinha? Ligo, ligo, ligo, toca, toca, toca e ninguém atende. Agora liguei e uma égua véia sem-vergonha me disse que tu não tava em casa. Onde é que nós estamos? Ainda por cima me deixa falando sozinho... Isso é um desrespeito.
– Ô papai, essa “égua véia” sou eu. Sou eu, pai!...
Com Tony e papai me esmerando nas explicações, contornei a situação.
E mamãe? Mulher sentida e de brios...
A história até hoje rende.
Ela diz que tem quase certeza que de que aquela voz era a minha, que nunca vai engolir essa desfeita e jura de pé junto, em tom de queixa, para os outros irmãos que lhe bati o telefone na cara. Durma, com um barulho desses!
Eu, pobre mortal, além de aturar os insultos da família, que mora no Nordeste, tenho que aturar também a gozação de filhos e marido carioca. Pense!



FOTO:apenasumfoca.files.wordpress.com/2009/11/tele