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quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A ESTAÇÃO DE IPUEIRAS



A ESTAÇÃO DE IPUEIRAS


( O CONDADO DO MEU AVÔ)

Nasci numa cidade do interior onde o trem dava o tom aos acontecimentos do pequeno lugar.

Sou neta de um Agente Ferroviário ou chefe de estação, como era chamado àquele que tinha a responsabilidade maior de uma estação ferroviária em suas mãos.

Meu avô era Gonçalo Ximenes Aragão que acabou colocando todos os filhos homens trabalhando na rede Ferroviária. Dois como agentes e um como telegrafista.

Minha mãe sempre falava da vida cigana que a família levava. Quando estavam começando a gostar de um lugar, vinha a ordem de transferência. E eles batiam em retirada.
Do que me lembro, do contado por minha mãe, a família morou em Pires Ferreira, Reriutaba, Charito, até finalmente meu avô aposentar-se e ficar definitivamente em Ipueiras.

Em Ipueiras, a estação transcende as atividades ferroviárias. Não é apenas uma construção a serviço da rede ferroviária. É tanto, que hoje, mesmo desativada o nome estação perambula na boca das gentes da minha terra diariamente.

A estação foi construída numa área afastada do centro da cidade, área esta cortada pelo Rio Jatobá. A ponte Idálio Frota liga a estação a Ipueiras. Estação passa a ser, portanto designativo de bairro. O Bairro da Estação.

O Joatobá não é um rio perene. Mas já teve seus momentos de grandes cheias levando sem piedade o aterro da velha ponte, deixando algumas vezes o bairro isolado temporariamente da cidade.

Foi nesse bairro quando existiam apenas poucas casas, e nem calçamento havia, que meu avô se instalou. Ali criou seus filhos, e alguns deles permaneceram por muito tempo habitando o velho bairro da estação, hoje irreconhecível com sua cara nova e seu magnífico calçadão.

Para se chegar à estação propriamente dita, antes tínhamos que subir o que se chamava: O Alto da Estação. Ali a esquerda de quem sobe tinha uma casa grande do meu avô e lá quem morava era minha tia Idel e o Zé Bitião.

Na casa do alto um bom e aconchegante alpendre era o point de primos, primas e amigos, que muitas vezes reuniam-se para dançar ao som de uma vitrola enquanto esperavam o trem. Faltando dez, cinco minutos para a chegada do tão esperado trem todos corriam para um quiosque, que até hoje ainda existe por lá. Atualmente é um barzinho.

A família Aragão foi pioneira naquele bairro, lá meu avô deixou marcado no barro suas pisadas. O bairro cresceu, as casas se multiplicaram, ganhou um comércio próprio e escolas. Uma dessas escolas leva o nome de Gonçalo Ximenes Aragão numa justa homenagem ao homem que dignamente soube pisar e reinar naquele chão.

5 comentários:

Bérgson Frota disse...

Uma bela e completa crônica de Ipueiras ligada ao seu mais profundo afeto por ela. Parabéns.

Jean Kleber Mattos disse...

O bairro da estação traz a marca da alegria e da saudade. Alegria pelos que chegam e saudade pelos que partem. Isso dá poesia, Dalinha...veja lá! Parabéns!

Oliver Pickwick disse...

Adoro ferrovias, trens e locomotivas. Tenho alguns livros sobre este assunto e, uma preciosidade: um atlas a cores, em papel especial, com quase todos os modelos de locomotivas já fabricados até a década de 70.
Nostalgia das mais saudáveis, esta do seu post.
Um beijo!

António Inglês disse...

Cara amiga

Tempos houve por este Portugal fora que as Estações Ferroviárias eram autênticos jardins maravilhosamente decorados. Havia mesmo um prémio anual para aquelas que melhor se apresentavam e mostravam ser mais cuidadas.
Tive um primo, no norte de Portugal, mais propriamente em Afife, terra de minha mãe, que era Chefe de Estação e aquela ganhou inúmeros prémios ao longo dos anos.

Agora, mais recentemente, muitas fecharam, outras passaram a apeadeiros, mas de arranjos e cuidados.... nada... sinais dos tempos que correm que não me agradam...

As que sobrevivem estão votadas ao abandono e em mau estado de conservação. Politicas comerciais...

Nos últimos anos, as transportadores de passageiros, vulgo autocarros, ganharam muito espaço comercial aos caminhos de ferro.
Claro que as principais vias de ligação entre grandes cidades mantêm-se e estão cuidadas, mas as outras as que ligavam as Vilas e terreolas deste país estão obsoletas e dão alguns problemas.

Gostei de a visitar e peço-lhe desculpa por vir aqui poucas vezes mas razões profissionais obrigam-me neste momento a um horário que se prolonga até às 23/24 horas da noite. Como chego mais morto que vivo a casa, ando sem grande vontade de passear pela Net.

Acredite que continuo a considerá-la.
Um abraço deste lado do Atlântico
António

Gracinha disse...

Como era grande a alegria de pegarmos o trem no final das aulas em Fortaleza e partirmos para Ipueiras;maior ainda era a tristeza de deixarmos a cidade e os amigos no final das férias.Bons tempos!Parabéns! Voce sempre foi uma pessoa de idéias avançadas e mente muito aberta.